terça-feira, 30 de dezembro de 2008

30/12/08 - London's Calling


A famosa música do The Clash intitula este post por uma só razão: amanhã estou indo para a maior cidade do mundo. Não, não tem a maior população, muito menos é tão extensa, mas é, sem dúvida alguma, a que reúne grande parte da população de muitos países do mundo, sendo assim extremamente cosmopolita. Vai dar pra lembrar um pouco de São Paulo lá, eu acho. Talvez no trânsito, na Picadilly Circus ou na beira do Tâmisa.Espero ver um pouco da minha cidade natal ali, só para matar a saudade.

Mas, antes de ir para Londres, tive que relaxar em casa e por isso não postei absolutamente nada neste humilde blog que está sendo acompanhado por alguns de vocês. O meu descanso e o relapso de notar coisas diferentes da minha rotina pré-estabelecida de torradas, computador, batatas e Internet , não me permitiu atualizar o diário. Mas agora estou fazendo-o, sem muito para acrescentar mas só para mostrar que não abandonei ninguém aqui!

Fui ao pub assistir futebol hoje à noite onde meia dúzia de senhores acompanhavam um jogo um tanto quanto sem graça entre duas equipes medianas do Campeonato Inglês. Só fui para me distrair um pouco e tentar aproveitar meu último dia em Eastbourne nesse ano. Antes, porém, fui obrigado a notar que o albergue que vou passar os próximos dias em Londres não é tão próximo assim da estação London Victoria e que perderei os quilinhos a mais, que ganhei nas batatas nesse fim de ano, nas caminhadas que terei que fazer entre os principais pontos turísticos da cidade e o meu local de repouso e café da manhã, porque esses vão ser meus dois únicos objetivos no hostel, já que nem o laptop levarei para evitar acumulo de peso.

Espero ver de tudo. Desde a troca da Guarda até o London Eye. Conhecer todas as partes que Londres me permitir, incluindo o tempo e o dinheiro possíveis. Tomara que tenha uma visão um pouco mais otimista desta fria e distante Inglaterra que estou tendo até agora. E, já que não nos falaremos mais nos próximos tr^sdias, deixo aqui meus votos de Feliz Ano Novo para todo mundo! Muita paz, felicidade, amor, dinheiro, e, o mais importante, saúde. Sonhos serão realizados. É só acreditar um pouquinho. Se eu estou aqui... qualquer um pode.

Feliz Ano Novo!

Trilha Sonora do Dia: Jorge Ben Jor – O Namorado da Viúva: ‘Que viúva é essa? Que todos querem, mas têm medo, têm receio de ser dono dela.’

sábado, 27 de dezembro de 2008

27/12/08 - Ida à Brighton


Qual é o teu sonho de criança mais intenso? Alguma coisa que te nutria quando era mais novo e te fazia sonhar que no futuro poderia fazer aquilo. Um destes sonhos era ver neve, uma das razões da minha vinda para a Inglaterra também – vã ilusão. Acontece que Eastbourne é uma cidade ao sul e uma das mais quentes do Reino Unido, logo a possibilidade de eu realizar esse desejo de infância é mínimo. Ou era. Acordei pela manhã, tomei meu café, fui à mercearia que tem aqui do lado de casa, folheei os jornais e saí em direção ao centro da cidade para embarcar com destino à Brighton. Durante a caminhada, porém, notei inúmeros carros cobertos por uma película fina e branca. Todos eles. Aos poucos essa película ia se dissipando e virando água. Por dedução lógica, percebe-se que era neve. Neve não, mas algo muito pequeno para ser chamado de neve. Em breve, com essas temperaturas baixas deverá ser possível brincar na neve e tacar bolinhas em alguém. Melhor não.

A viagem para Brighton foi tranqüila e sonolenta. Antes diss, porém é necessário fazer mais um comentário sobre a comida daqui. A Fanta Laranja deles não é de laranja. É Fanta Citrus, Fanta Energil C, Fanta qualquer coisa, menos Fanta Laranja. Além do sabor horrível ela não é laranja! É uma cor que, perdão aos puritanos, aparece xixi. Cheguei em Brighton com a minha mente feita daquela cidade desagradável, mas não demorei muito para perceber o erro que tinha cometido ao falar mal de Brighton&Hove. A cidade tem suas atrações, mas é cidade grande diferente de Eastbourne, então um olhar clínico mais demorado foi necessário ara que visse seus encantos.

A maior atração turística da cidade é o Royal Pavillion. Um prédio imponente, lindo, aparentemente com toda sua estrutura externa em modelo indiano, mas internamente o que se vê são contemplações da história chinesa e dragões por todos os lados. Logo ao lado do Pavillion está o Museu de Brighton. Ali entrei por pura curiosidade e pelo ofício – sim, até aqui eu penso no Liceu. Logo na entrada consegue-se ver que não é um museu dos mais comuns daqueles que abrigam um ou dois tipos de exposição, normalmente, correlacionadas. O que se vê dentro do Brighton British Museum são peças da história da cidade, em todos os ângulos, até uma exibição de arte moderna interessantíssima que reunia várias mensagens de mulheres da vida, para ser sutil, em orelhões da cidade e suas respectivas respostas. Um objeto, porém, chama mais a atenção do que os demais na exposição. Não, não é uma peça, um quadro ou uma cerâmica. São dois telefones que, ali instalados, te possibilitam se relacionar com a obra. Você escolhe qual das explicações quer ouvir e aperta play. É genial. Para se ter uma idéia, consegui ouvir a narração de um jogo de hockey que consagrou o time da cidade campeão nacional em 1959. Cinqüenta anos atrás! Finalizei minha visita andando pelo parque que circunda as duas edificações e ao fim do parque vi um bandeira verde e amarela no horizonte. Dei alguns passos à frente e comecei a rir sozinho em direção a flâmula do país. Cheguei na porta e descobri, em Brighton, um restaurante brasileiro com dono brasileiro e feijoada! O único problema é o preço, acima do que um estudante comum pode ambicionar pagar.

Finalizando a viagem, fui conhecer o píer e realmente a praia deles é melhor do que a de cá, Eastbourne. Lá existem as mesmas pedras, mas a praia é mais limpa e o mar azulíssimo – neologismo. As fotos que lá tirei, com o sol ao fundo, comprovam.
Na volta vim dormindo no ônibus e quase acabei perdendo a volta para casa já que o esperto aventureiro não soube que pegara o ônibus apenas até Seaford sendo necessário fazer uma ‘baldiação’ – pegar outro ônibus sem nenhum custo – para voltar para Eastbourne. Felizmente achei o ônibus, o caminho de casa e do chuveiro, já que o frio lá fora castigava e a previsão para a madrugada é de temperaturas abaixo de 0. Vamos todos torcer pela neve!

P.S: Esqueci de dizer algo de suma importância para os nacionalistas e aqueles que estão começando a ficar assim – como eu. Entrei em uma loja de sapatos e logo reconheci a música. Não, não era a Ivete Sangalo. Mas Jorge Bem tocando O Vendedor de Bananas, um clássico seu e da música nacional. Sorriso estampado no rosto saí e fui para a loja de cd’s ao lado e me deparo com uma sessão exclusivamente dedicada a nossa música que iam desde Os Mutantes até Milton Nascimento. Fantástico.
Trilha Sonora do Dia: Legião Urbana – Angra dos Reis: ‘Quando as estrelas começarem a cair, me diz, me diz, pra onde é que a gente vai fugir.’

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

25-26/12/08 - Ceia e Boxing Day

Algumas datas se tornam especiais por algum motivo banal. No Brasil instituíram o Dia da Consciência Negra, que, na verdade, é um feriado para se emendar com a Proclamação da República e todo cidadão brasileiro começar a sentir o gostinho de férias. Sei que não é essa a razão por existir o dia em homenagem aos negros, mas é apenas como grande parte da população brasileira vê. Mas quero falar de Boxing Day que tem um significado muito diferente do que vocês possam imaginar, mas deixemos isso para daqui dois parágrafos.

Agora vamos ao que interessa, descrever minha ceia que tava mais linner – uma mistura de lunch com dinner – almoço e jantar – já que a refeição foi servida às três e meia da tarde do dia de Natal. Particularidade e diferença inglesa: aqui, na noite do dia 24 de Dezembro nada de especial acontece. Não existem jantares nem as famílias se reúnem, no máximo, uns telefonam para os outros, ao contrário do Brasil onde a celebração é no pré-Natal e o Natal fica com o almoço familiar (normalmente com o que sobrou da ceia da noite anterior). Mas, como aqui é diferente, meu almoço não foi baseado em peru. Foram as batas. Batas doces, salgadas, cozidas, fritas, assadas. De todos os tipos e tamanhos. Impressionante. Ah, também existiam algumas fatias de peru, carne de vaca e presunto assado com queijo, a melhor pedida da tarde. Couve-de-Bruxelas era o principal das saladas que incluíam aí vários dos vegetais indo do pepino ao ‘vegetal’ tomate – eu sei que é uma fruta.

Fui dormir com a perspectiva do Boxing Day. E pensar em Boxing Day remete à muitas pessoas amontoadas em frente a uma loja esperando as portas abrirem para que elas corram, peguem os itens mais importantes – e baratos – e voltem para suas casas aproveitar o resto de Natal que sobrou. Aqui, para a maioria das famílias, o Boxing Day continua sendo Natal. Por isso algumas mais tradicionais com a minha, que teve seis filhos e tem um senso de união familiar gigantesco, não concorda com essa idéia de Dia das Compras que o Dia das Caixas tomou. Na realidade,o Boxing Day começou há alguns séculos atrás quando os burgueses deixavam os restos de seu Natal farto e até algumas doações, tanto em dinheiro quando em bens, para as pessoas das classes mais pobres. O nome Boxing Day se deu porque essas doações eram colocadas dentro de caixas que os mais necessitados recolhiam ao fim do dia 26. Aqui é mais ou menos assim, só que, dessa vez, quem faz caridade são os compradores devido a crise mundial que assola a economia e que faz os preços ficarem cada vez mais baixos devido a necessidade pela venda.

O shopping da cidade, o Arndale Center, estava vazio quando cheguei e permaneceu assim até por volta das dez e meia da manhã, quando as principais lojas levantaram suas portas e as vendas começaram. Os preços não estão despencando, devido a isso uma pesquisa mais aprofundada me fez salvar alguns pences e pensar no que poderei comprar depois. Não é um espetáculo consumista, basicamente definindo o Boxing Day em Eastbourne.

Amanhã começam as vendas de Janeiro, mesmo ainda sendo Dezembro, o que permite concluir que os valores devem diminuir um pouco mais. Vou para Brighton conferir se os preços lá também estão em baixa ou se as coisas continuam dentro do padrão inglês = caro.

Trilha Sonora do Dia: Los Hermanos – Além do que se Vê: ‘É difícil ser feliz, mais do que somos todos nós.’

Este post é dedicado à Gabriella, uma das melhores pessoas que conheço e que completa dezessete anos hoje. Parabéns Gabi!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

25/12/2008 - NATAL

Merry Christmas ! Ou como eles preferem dizer aqui: Happy Christmas, porque desejar felicidade é muito melhor do que desejar diversão. Ou não, mas em todo caso eles são ingleses e concordo com a consideração supracitada.

Passei o nosso Natal, que é comemorado na véspera, em um pub, olhando para as pessoas que nada faziam ou aquele bando de jovens querendo se embebedar no dia 24 de Dezembro. Tudo isso porque Natal é hoje e não ontem. Eles não fazem absolutamente nada no dia 24, nem jantar, nem comemoração com a família. Ficam em casa como se fosse outro dia qualquer. Então fui obrigado à sair e procurar o que fazer no meu Natal. Não achei muita coisa, mas a experiência de ficar dentro de uma cabine telefônica à uma da madrugada tentando falar com toda a minha lista de amigos que eu possuía no meu celular, sendo que fui atendido por pouco mais que cinco pessoas – vamos citar nomes !: meus pais, meus tios, Miucha, Victor, Gabi, Boquinha e Shoiti – sendo que liguei para pelo menos umas trinta pessoas. Foi bom ouvir a voz do pessoal em um dia tão especial quanto o Natal.

Cheguei em casa por volta das duas da manhã e ainda passei boa parte da noite acordado pensando no Brasil, com muito sentimento de nostalgia mas sem aquela vontade absurda de voltar. A vontade era de ficar com aqueles que são como nós.
Acordei tarde, perdi o café da manhã e decidi que não desceria para a sala de jantar até que alguém viesse falar comigo. Consegui me segurar até as duas da tarde quando tive que descer para ver se algo para suprir meu estômago reclamão havia. Cheguei lá e a Mrs. June me deu um beijo no rosto e me desejou um Feliz Natal, assim como sua mãe. Entreguei à ela os dois presentes que tinha comprado aí no Brasil, duas canecas com o síbolo do pai´s, ela ficou muito feliz, disse que não precisava, que eu não devia ter me preocupado, mas logo depois para minha surpresa ela me entrega um cartão de Natal e uma caixa de chocolates! Sim, eu ganhei presentes de Natal! Chocolates típicos da Inglaterra e dentro do cartão com desejo de tudo de bom uma nota de 10 Libras olhava para mim. Quero mais o quê?

A ceia saí daqui a pouco e vamos ver se ela cozinha também em ocasiões especiais.
Novamente, para todo mundo aí no Brasil, um Feliz Natal. Que tudo possa dar certo nesses dias e, no ano novo, as coisas sejam melhores ainda.

Trilha Sonora do Dia: The Courteeners – No You Didn’t, No You Don’t: ‘Just because I use to be so amazed and I don’t think in any other else, doesn’t mean that I am not clever.’

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

21/12/08 - Domingo

Não tive rugby. Não tive vitória do Liverpool. Não tive pub com a tchecaiada. Mas mesmo assim considero como um dos melhores dias desse pequeno brasileiro na terra da Rainha. Primeiro porque não fui atacado pelo bichinho chamado saudade de forma estrondosa, o que mostra uma evolução latente na minha forma de se comportar aqui. Segundo, fiquei feliz, e mesmo que isso seja até certo ponto deprimente, com a preocupação que algumas pessoas se mostraram ao verem meu ‘estado depressivo’. Os donos da casa e Jin, o coreano que me convidou para jogar rugby foram essenciais nesse domingo para me levantarem e me mostrarem que as coisas estão indo muito bem.

Comecemos pela tarde já que o café da manhã e os elogios de Sonny ao nosso Rubinho Barrichello podem passar despercebidos, mas não antes importantes de serem comentados já que ele não consegue entender como o povo brasileiro faz da imagem de Barrichello a de um derrotado. Pela interpretação do meu anfitrião, o ex-ferrarista é um dos melhores pilotos dos últimos anos no circuito, porém nunca conseguiu um carro à altura de seus feitos – ou, como ele mesmo disse, um companheiro com quem ele pudesse ter igualdade dentro da equipe.

Passado o café e o tédio completo matinal saí e fui em busca de rugby! Cheguei em frente ao portão da nossa escola três minutos mais cedo do que o combinado e Jin, numa pontualidade mais que britânica me encontrou lá às exatas 13:30. Fomos para o parque, muito bonito que até então desconhecia onde é possível praticar qualquer tipo de esporte. Esperamos e jogamos papo pro ar. Ele me disse para procurar outra família que tivesse Internet e falou para eu comprar um celular, eu recusei mas fomos atrás da Internet depois – como vocês já puderam perceber. Ele me perguntou sobre o namoro e depois começou a contar o dele, uma história um tanto quanto triste. A ex-namorada dele, com seus vinte-seis anos – ele vinte-cinco – já está na época de casamento na Coréia do Sul e este foi o único motivo pelo qual ele veio fazer esse curso na Inglaterra: arrumar um emprego, poder proporcionar uma boa renda para a esposa e conseguir o casório que ele tanto deseja. Ele, que já namorava a seis anos, me disse com quase lágrimas nos olhos que só queria ela de volta. E eu aqui, egoísta, me martirizando por dois meses e meio longe do meu amor.

Ninguém apareceu, ele ficou um tanto quanto embaraçado de ter me convidado para jogar e o pessoal ter dado o cano nele. Então fomos para o shopping, pesquisamos a Internet e a loja de esportes, só até o horário do jogo quando entramos no The Gildredge. O pub não estava cheio. Mas, quanto mais o horário da partida se aproximava, mais o pub lotava. Até que as quatro da tarde via-se quase um mar vermelho. 90% do local era torcedor do Liverpool. Mas nada de cantoria ou de discussão, o jogo foi assistido de forma calma e tranqüila, mesmo nos momentos de um pouco mais de tensão como no gol do Arsenal e na expulsão de Adebayor. O pessoal não se manifestava nada além do normal. Finalizado o jogo um senhor, trajando a camisa do Liverpool me cumprimentou, disse que era de Liverpool e que eu estava de parabéns por torcer pelo maior da Inglaterra, principalmente depois que ele soube que eu não era inglês e sim brasileiro.

Voltei para casa tranqüilo, com a cabeça mais do que vazia e sem muito para discutir após aquele insosso 1x1. Despedi-me de Jin no caminho já desejando a ele os melhores votos de Feliz Natal e Ano Novo. Chegando em casa tive aqueles jantares espetaculares da Mrs. June que depois ficou longos minutos conversando comigo e me tranqüilizando sobre a saudade e a distância de casa. Ela usa uns exemplos ótimos como: o que são dois meses e meio olhando para toda sua vida? Não tenho como não concordar com ela e dizer que estou mais resistente e afeito a ficar aqui até o fim.
E assim será!

Trilha Sonora do dia: Skank – Balada do Amor Inabalável: ‘Levo essa canção de amor dançante para você lembrar de mim, seu coração lembrar de mim.’

20/12/08 - Sábado





De um dia parado e completamente sem nada par fazer fez-se um dia cheio de tudo e de nada ao mesmo tempo. Comecei por explorar as montanhas da região – meu próximo passo é o Everest – e descobri que aqui atrás escondem-se três campos de rugby e um de futebol, não adianta muito já que não tenho bola muito menos com quem jogar. Fui procurar o farol de Beachy Head, não achei e acabei tendo a melhor vista possível da cidade de Eastbourne, toda a extensão de sua costa até o começo das montanhas onde, segundo Mr. Sonny, ocorrem por volta de cento e cinqüenta suicídios por ano. Comentário maldoso: pelo menos é um lugar bonito para morrer.

Saí dali e fui em busca de algo para fazer no centro da cidade. Pensei em fazer uma lista dos presentes de Natal, mas aquilo me tomaria muito tempo e minha paciência – e vontade – estavam curtas. Então, de uma forma inesperada para mim, resolvi ir para Brighton. Simples, era só pegar um ônibus e chegar lá em, no máximo, uma hora. Ah, para questão de detalhamento, o ônibus era vermelho daqueles de dois andares, mas, desculpe se os decepciono, não tem nada de mais nisso. É mais legal ir em ônibus de excursão escolar.

Durante o caminho para Brighton passamos por algumas cidades, que mais pareciam vilarejos, todas com o sufixo ‘haven’ em seus nomes, como Newhaven, Seahaven e Beachaven. Todas cidadezinhas dormitório onde o máximo que se pode fazer é olhar para o mar o dia todo. Mas cidades bonitas, sem dúvida alguma. A estrada, estreita e com pouquíssima sinalização, faz a viagem parecer um pouco perigosa e demorada já que o ônibus para diversas vezes para recolher o pessoal que go de cara, quer ir de um ‘centro’ ao outro.



Chegando a cidade de Brighton, logo de cara, é possível visualizar a Marina, com toda certeza, a construção mais impressionante de toda cidade. Ali milhares de barcos ficam ancorados, e, próximo destes, ficam diversos prédios onde o pessoal mora, faz compras, trabalha. Praticamente uma cidade à parte. Esperava muito de Brighton depois que vi isso, mas me decepcionei. A cidade é suja e feia. Claro, não chega a ser horrível, mas não impressiona em nada. As ruas são todas apinhadas de gente procurando por alguma loja com preços baixos, me lembrou muito o centro de São Paulo, com a diferença de que o que existe ali não são ruas mas sim vielas onde as pessoas se espremem para conseguir ver um relógio na loja da Rolex ou tomar um café na Starbucks. Nem a loja da Disney vale à pena já que é pequena e tem poucos itens de real valor comercial lá dentro. O que faz a cidade um pouco bonita é sua estação de trens, gigantesca, com trens para todos os cantos do país e gente muito bem educada atendendo a todos os turistas – como eu.

Voltei para Eastbourne um tanto quanto decepcionado e com a saudade latejando no meu peito, não sei por qual motivo. A biblioteca da cidade me recebeu e fiquei por cerca de uma hora lá sem conseguir postar meu texto no blog o que me dá a idéia de que ficarei um bom período sem me comunica com vocês. Voltei para casa com o coração apertado por não poder estar presente na formatura do meu irmão – aliás, parabéns Felipe, você ta crescendo cara, não sabe o quanto eu gostaria de estar aí – e jantei de forma infeliz. Tentei afastar isso do peito assistindo um pouco de snooker britânico e depois de duas horas de competição percebi que a programação da TV inglesa é muito parecida com a nossa: tem a Dança dos Famosos – igualzinha a do Faustão, tem quiz com celebridades, tem filme noturno ruim, tem programa igual ao da Hebe. Igualzinho. Só não tem uma coisa: futebol. Por isso terei que ir ao pub hoje assistir Arsenal x Liverpool.

O Sr. Sonny me aconselhou a não jogar rugby, mas como sou extremamente teimoso, cabeçudo e preciso me ocupar, vou! Talvez só assista, mas quero ver como será essa experiência. A noite os tchecos me convidaram para sair com eles pela última vez. Quero ir, um dos poucos amigos que fiz por aqui.

Estou contando quantos dias faltam para ir embora e não a quantos eu estou aqui, isso mostra um pouco da minha situação. Mas depois lamentamos.

Trilha Sonora do Dia: Legião Urbana – Pais e Filhos: ‘É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.’

19/12/08 - Sétimo Dia

Uma semana de Inglaterra! Não é aquele sonho todo que eu pensei que seria, não é uma maravilha e muito menos o melhor país do mundo para se sentir extremamente alegre o dia todo, mas sei que poderiam existir opções piores e esse é o meu principal consolo; saber que inúmeras pessoas amariam estar passando por uma experiência semelhante a minha e não podem fazê-la. Por essa razão, e muitas outras, tenho que valorizar e parar de frescura quanto a saudade e vontade de voltar para casa. Calma, faltam somente 62 dias, não é muito, passará voando – eu espero.
A realidade é que estou bem melhor e as coisas aqui parecem estar melhores. Andréj vai embora amanhã então é um a menos para eu conversar, mas isso pode ser um sinal de que a semana de Natal não será tão ruim quanto eu pensava. Ontem foi o fechamento da escola e houve uma festa com comida e um quiz em que minha equipe ficou no decepcionante sétimo lugar – de nove times. Voltei para casa e consegui a proeza de ficar trancado depois de ter ido ao correio comprar alguns envelopes para enviar algumas cartas. Aliás, o povo que trabalha no correio daqui são os únicos que parecem de bom-humor nessa cidade.
Voltei para a escola e lá passei boa parte da minha tarde com os brasileiros na Internet, ato que estou tentando evitar ao máximo para não chamar mais saudade. Esta que esta se esvaindo aos poucos, mas que não deixa de estar presente no meu peito. Muito poético este último parágrafo.
Coisas boas também acontecem! Descobri que tenho uma prima em Londres e é mais alguém para compartilhar um Ano Novo não tão solitário, além de uma possível economia no hostel. Tomara que a Fabiana me receba de braços abertos porque, informações que recebi, ela também não está nada bem. Pôxa, se ela, adulta, morando numa cidade espetacular como Londres está chateada e triste devido à distância da família porque eu, um jovem, na minha primeira empreitada distante do meu povo, não ficaria pra baixo nas primeiras semanas? Tenho todo direito ó!
Estou apenas com medo de como será o Natal nessa casa em que pouco se conversa além de um ‘Bom Dia’ ou ‘O que você fará hoje a tarde ?’ pois tenho presentes para dar a família Ullah. Será que eles ficaram surpresos com essa minha prova de cordialidade? Esperar o dia 25 de Dezembro, que está chegando, para ver.
Ontem à noite saí pela cidade para esfriar um pouco a cabeça e fugir do ócio e tédio que me ocupam quando fico em casa sem escrever ou assistindo Evolution (já assisti três vezes e apesar do filme ser razoavelmente engraçado ninguém agüenta mais do que isso em alguns poucos dias). Percebi algumas coisas: as inglesas se vestem extremamente de forma, diria, indelicada. Num frio de quase 5 Celsius, cada menininha usando um vestido mais curto que o outro sem se importar quem dissesse qualquer bobagem ou passasse olhando descaradamente. Elas simplesmente não se importam. Outro fator, os pubs da cidade não são cheios de garotões querendo arrumar menininhas e vice-versa, mas sim de semi-senhores, seus cinqüenta anos nas costas, bebendo sua cervejinha – cervejona, na verdade, já que o Pint, o copo usual daqui conta com 500 mL – e jogando conversa fora ouvindo músicas dos anos 60, 70 e 80.
Mais impressões inglesas trago nos próximos dias já que não terei muito o quê descrever da minha rotina além das minhas refeições ou da minha constante saudade. O bom é que está passando e prefiro ser otimista e pensar que isso não é nada passageiro, mas sim que as coisas tendem a ficar melhor enquanto o tempo passa.

Trilha Sonora do Dia: Los Hermanos – O Vento: ‘ Posso ouvir o vento passar, assistir a onda bater, mas o estrago que faz a vida é curta pra ver.’

sábado, 20 de dezembro de 2008

Postagem extra oficial:

as postagens ficarao mais complicadas daqui para frente, a menos que eu arrume um pub onde consiga postar ao mesmo temp oque assista algum jogo de futebol.

O BRASIL FAZ MUITA FALTA !

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

17-18/12/08 - Quarta-Quinta-Feira


Alguns dias não nos sentimos bem ou simplesmente temos uma pequena sensação de depressão – essa é uma expressão profunda demais, mas é a que melhor se encaixa pelo período que eu estava passando. Acho que isso passou, pelo menos momentaneamente. Claro, sei que o Natal dificulta muito mais as coisas e esse é o período do ano onde nós devemos estar com as pessoas que gostamos, mas alguns sacrifícios têm de ser feitos e minha mente, e até um pouco do meu coração, estão se acostumando a esse pensamento de distância das coisas que gostamos.

Já que terei de ficar na Inglaterra mesmo nos tempos de reunir a família resolvi que tenho mais é que curtir! É, não parece tão fácil quanto eu dizendo aqui, mas vamos lá.

Arrumei um albergue barato e bem perto do centro de Londres onde passarei o meu Ano Novo olhando os fogos em frente o Houses of Parliament e depois voltarei para o albergue com aquela vontade de abraçar alguém e desejar um feliz ano novo. Espero encontrar brasileiros em Londres. Não dizem que sempre tem um em qualquer canto ? Se tem um em Eastbourne, porque não teríamos em uma das maiores cidades do mundo ?

Falando no brasileiro, Vicente, cearense de Fortaleza, com aqueles sotaque e rapidez inconfundíveis na voz que até fazem parecer inglês fácil. Ele também se sente solitário aqui, o que nos traz a um ponto comum, e nos ajuda a conviver bem. Porém a situação dele é pior que a minha. Em partes, claro. Sua namorada está trabalhando na Disney e só volta, também, no fim de Fevereiro como o Joãozinho aqui. Ele, entretanto, volta para sua boa terra no fim de Janeiro e agora está a caminho de Londres para depois passar o Ano Novo em Paris. Chato não?

Hoje fui apresentar o pouco que conheço de Eastbourne para ele. Encantou-se com o píer, disse que lembra muito o de Fortaleza e é uma forma de trazê-lo para perto de casa. O que me leva para São Paulo é o céu nublado.

Arrumei algumas amizades dentro da sala de aula. Um sul-coreano, Jin, ex-reservista do exército sul-coreano e extremamente orgulhoso de seu país é um dos mais simpáticos comigo e me convidou para jogar rugby com ele no domingo de manhã. Acho que não recusaria um convite desse de forma alguma. É uma forma também de perder alguns quilinhos, mesmo sem almoços regulares, as abdominais no quarto não estão ajudando muito.

Arrumei uma forma de passar meu tempo livre! Não, não pretendo escrever um guia turístico sobre a cidade de Eastbourne, mas arrumei um site em que posso fazer download de vários livros para passar o tédio que é ficar a noite no quarto sem nada para me distrair – e não precisar encher a Mrs. June pedindo algum DVD pra pegar no sono.

Por enquanto é isso e sei que, apesar da distância e da saudade, isso passará. E se não passar, terei muito tempo para aproveitar o Brasil quando voltar. Praia no carnaval !

Trilha Sonora do Dia: Jorge Bem Jor – País Tropical: ‘Moro num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza.’

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

16/12/08 - Terça-Feira - Quinto Dia




Hoje não falarei de escola. Não falarei de coisas que fazemos usualmente, nem direi para vocês o que comi no meu jantar. Na verdade, você comeu polenta hoje? Eu comi. Uma polenta um tanto quanto diferente, com uns vegetais no meio, do tipo ervilha e cenoura ralada, que levam a uma mistura peculiar, gostosa e extremamente quente. Mas voltando ao ponto principal deste post, falaremos de pubs.
Pubs são lugares, no Brasil, onde gente diferente se reúne para beber cerveja e discutir sobre os menos variados assuntos – o público de pubs é bem restrito. As pessoas ‘normais’ costumam ir em bares, onde a comida e a bebida é mais barata e o ambiente não tão fechado ou poluído, pela fumaça dos cigarros. E quando não existem bares? O que fazer? Os ingleses vão pros pubs. Mesmo se existissem os bares, os britânicos continuariam indo pra pubs. Mas desfaça toda e qualquer imagem que você tenha deste tipo de recinto. Na Inglaterra eles são completamente diferentes. Vi alguns pela cidade mas não tive coragem de entrar e pedir uma Coca-Cola. Mas ontem tive a oportunidade de conhecer não só um, mas dois pubs, classicamente ingleses.
Primeiramente sai com Andréj de casa e fomos em direção ao Bucaneiro – The Buccaneer – onde se daria a reunião semanal dos membros da escola LTC de Eastbourne, uma confraternização para que as pessoas se conheçam melhor, falem inglês até não conseguirem mais e beber algumas cervejas – ou, no meu caso, uma Schweppes. Pelo menos a Schweppes é muito mais barata que a cerveja – mas isso tudo é praticamente impossível quando você está com um grupo de estudantes tchecos. Dentre os 14, conversei muito com seis, e todos, muito simpáticos e acolhedores, brincaram, riram, fizeram piadas sobre tudo e todos e me introduziram no grupo, o que diminuiu um pouco a saudade de casa e me fez até esquecer que eu tava em um país estrangeiro onde as pessoas pouco se comunicam. Mas alguns detalhes, sobre os tchecos, são necessários ressaltar: eles bebem muito. Todos. Muito mais do que qualquer brasileiro normal suportaria em um período curto de tempo. Homens e mulheres, sem restrição de idade, tamanho, cor da pele, ou diferente sotaque de inglês e tcheco. A consumação etílica é algo impressionante, algo como cinco litros e meio de cerveja, segundo eles, da mais amarga possível em um período de três horas. Além claro deles terem um conhecimento muito vasto sobre geografia, história e, a grande maioria dos nossos amigos da Moravia-Bohemia, terem como sonho conhecer a América do Sul.
O Bucaneiro tem um aspecto limpinho, diferente do que se imagina. É um pub secular, tem em suas paredes várias fotos da cidade de Eastbourne a cem anos atrás, quando a cidade vivia outros costumes, apesar do píer ser o mesmo. As cadeiras são poucas e você, se quiser, senta-se em sofás com uma mesa ao centro. Muito mais confortável. O serviço das atendentes é ótimo, mas uma particularidade muito inglesa: não existem garçonetes ou garçons; caso queira uma bebida ou comida você tem que buscá-la no balcão do pub. Todas as marcas possíveis de cerveja você vai encontrar lá, aquelas que patrocinam os eventos esportivos e os times de futebol, até as mais exóticas do Leste Europeu. E para nós, impossibilitados de beber qualquer uma dessas, temos uma variedade ‘enorme’: Coca-Cola e Schweppes. É, água também. A venda de bebida alcoólica para menores é restrita e rara de acontecer – não, eu não testei o sistema, apenas comentários de Mrs. June – eles sempre pedem o seu cartão de identificação, nosso RG, carteira de motorista ou passaporte.
Depois das oito cervejas, a dona do pub quase nos expulsando e os tchecos indo embora, restando apenas Andréj, Jakub, homens, e Marica e Zuzana, mulheres, fomos para outro pub, em frente o próprio Bucaneiro, junto com os managers da escola. Lá estavam dois professores e um dos diretores gerais, Alisdair. Este outro, muito mais exótico e com cara de pub ‘sujo’, vazio as 23:00 de uma terça-feira, teve nossa boa visita que acabou após Andréj quase cair em cima de uma das outras tchecas. Aí, como bom companheiro que sou, trouxe o para casa comigo. O melhor, ele não estava nada bêbado.
Só vou falar algumas coisas que aprendi em tcheco, vamos ver se alguém consegue adivinhar isto:
- Doprdeela;
- Kurrva,
- Hoovna

Duvido que alguém consiga. Mas tentem, eu deixo.

Trilha Sonora do dia: Skank – Três Lados: ‘E quanto a mim não é o fim, nem a razão para que o dia acabe.’

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

15/12/08 - Quarto Dia

Enfim estudando! Não era para isso essa viagem mesmo? Acordei mais cedo – em termos já que pouco dormi essa noite – e fui para a escola acompanhado do meu companheiro de casa Andréj. Chegando lá tivemos uma pequena introdução de como eram as aulas, as salas e a escola. Ao fim da primeira hora de conversa dentro de um grupo onde haviam quinze tchecos e apenas um brasileiro, me aprece outro da terra abençoada aqui.O nome dele é Vicente, 23 anos, cearense de Fortaleza, estudante de Medicina que já teve problemas em sua primeira noite em Eastbourne e mudou de casa. Pra onde? A casa da filha da minha hostmother, perto da minha escola e com Internet. Será que ele não quer trocar não?
Tivemos um teste aplicado pelos instrutores de Eastbourne LTC os mesmos que aplicam os testes em Cambridge e, após trinta questões fáceis, me sentia suficientemente autoconfiante para dizer que meu inglês era muito bom. Porém – sempre existe um porém – as próximas trinta perguntas não eram nada fáceis de se resolvrem ou entenderem e meu desempenho caiu. Para minha surpresa, entretanto, dentro da lista de nomes chamados, meu nome nunca era mencionado, de duas uma: ou era muito ruim ou acima da média. Fiquei em um turma de nível Acima do Intermediário como eles dizem aqui Upper Intermediatte, melhor do que eu esperava e o máximo que podia alcançar nessa primeira fase de estudos.
Duas aulas, uma com um inglês que me lembrava, e muito, o vocalista do Placebo com trejeitos extremamente homossexuais, e outra com um irlandês engraçado e com auto declamação de beberrão que poderia ser comparado a qualquer ator desses filmes com crianças, feitos para crianças, do estilo de Beethoven, me deram noção do que eu encontraria nesses meses estudando inglês. Não terei facilidade, principalmente, devido a mistura gigantesca de sotaques e jeitos diferentes de falar inglês. Vamos falar dessa miscelânea então.
Três coreanos, quatro tchecos, um russo e eu. Cada um na sua particularidade, mas, basicamente: os tchecos são na deles, mas entre eles falastrões e simpáticos. Os homens, todos, altos, magros e alvíssimos. As mulheres de rostos muito bonitos, a grande maioria loiras, todas de olhos claros, e muito tímidas. Os coreanos falam bem, dão mais opinião e são curiosos sobre tudo. Um deles, quis até saber qual era a camisa que eu estava usando e quando disse que era do novo time do Ronaldo ele já se disse torcedor fanático do time do melhor jogador do mundo. O russo é um caso a parte. Nickolay – ou como o professor Brian Molko disse, Nick – pequeno, do meu tamanho, com uns pequenos pelos saltando ao rosto, cabelo arrumadíssimo e intocado, tão intocável que até parece laquê. Com todos os trejeitos imagináveis e inimagináveis do francês mais estranho que você já pode imaginar em tua vida. Conhece o Pepe Lê Pee, o gambá galanteador dos desenhos da Disney? Nickolay lembra ele em tudo, exceto no donjuanismo.
Quatro horas no MSN, e, enfim, consegui colocar algumas fotos na Internet e um vídeo no Youtube, sem, ao menos, gastar quase duas horas em todo esse processo. A saudade do pessoal bateu mais forte e depois de todo esse tempo com a brasiliandade na Internet, voltei para casa com, pela primeira vez, o coração apertado de saudade e vontade de ver todo mundo, desde os amigos mais amigos até os colegas mais distantes, passando, obviamente, pela família e a namorada.
A Meads Road me esperava, entretanto, me esperava de forma diferente do usual. Escura e mal-iluminada, às cinco da tarde, caminhei até em casa onde passei mais uma hora e meia até o horário do jantar onde tive, brilhantemente cozinhada, uma lasanha a bolonhesa. Acho que minha mãe anda mandando minhas comidas prediletas pra Dona June, porque essa mulher só faz coisa boa!
Amanhã o pessoal vai ao pub e estou pensando se irei. Vontade não me falta, mas não quero gastar. É o encontro semanal do povo da escola e até as onze da noite eu posso ficar pelas ruas de Eastbourne. Nisso, pelo menos, São Paulo é muito melhor que a cidadezinha inglesa. Quem disse que se precisa do mundo quando se tem o melhor sorriso da terra a alguns minutos da tua casa. Descobri que não sou um cara do mundo.

Trilha Sonora do dia: Tim Maia – Azul da Cor do Mar: ‘Ter algum motivo pra sonhar, um sonho todo azul, azul da cor do mar.’

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

13/12/2008 - Terceiro Dia

Um dia mediano, sem muito o que dizer, com grandes picos durante toda sua extensão que me levaram de um certo abatimento até uma felicidade radiante.

Começando pela minha visita à costa da cidade onde consegui perceber que apesar de ser uma cidade turística, Eastbourne não chega aos pés de qualquer cidade ralé da costa brasileira. A praia é cheia de pedras, sem a mínima condição para banho, e apesar disso tudo é um balneários dos mais visitados no verão inglês. Não sei por quem, ou melhor até sei: aqueles que não podem pagar uma viagem para Mallorca ou Nice. Então, venham para Praia Grande ué, é tão bom quanto, mais barato e vocês vão poder colocar seus pés na areia sem pensar em se machucar – aqui não existe areia.

O píer foi minha grande decepção do dia. Cheguei pensando que veria a essência da cidade costeira e o que vi foi um local meio abandonado, sem muito a oferecer, com um lado comercial fortemente reforçado e precário, apesar da população ainda tentar manter o píer como principal atração da cidade, apesar de eu preferir os lados mais próximos aos teatros, a tal rua da Água Preta, onde está localizado também o Colégio da Cidade, uma praça que mais parece um campo de rugby desativado e o Eastbourne Tennis Club onde é realizado, em Junho, o torneio Internacional de Eastbourne que já trouxe para cá de Henin-Hardenne à Sharapova. Mas paremos por aqui com essa propaganda barata e não-paga da cidade.

Sair dali foi fácil e me achar no centro da cidade foi mais fácil ainda, após o passeio de ontem. Duas coisas me decepcionaram e me estranharam muito hoje:
- Estou eu, andando pela rua principal de Eastbourne, um tipo de calçadão aonde não transitam carros e estão as principais lojas, se aproxima uma mulher, seus quarenta anos de idade, cabelos levemente brancos e uma expressão, até certo ponto, simpática em seu rosto. Do nada, ela se aproxima, coloca uma flor em minha lapela, e pede uma doação para as crianças de não sei onde. Sou simpático a esse tipo de causa e fui tentar ajudar, porém, como não estou andando com dinheiro para evitar gastos peguei meu monedero made in Argentina e tirei minhas poucas moedas, quase 1 euro, e dei-a. Ela olhou para minhas mãos e disse: “ I don’t want this. I want paper money !’. Fiquei desolado, olhando para a cara da mulher por segundos até que disse: ‘Sorry, so I can’t help you’. Pela primeira vez na vida vi alguém negando qualquer tipo de doação. Além do que, hoje vi o primeiro mendigo em Eastbourne o que prova que nenhum país ultra-desenvolvido do mundo pode escapar as mazelas sociais.
- Não consegui, em lugar algum, trocar meus euros por libras o que significa que terei que segurar por mais alguns dias o dinheiro. Claro, tudo tem seu lado bom. Eu economizo e poso deixar as compras para o Boxing Day.

Cheguei em casa, consegui acesso à Internet graças ao grande e pouco falante chinês Bill. Por duas horas consegui me comunicar um pouco com o povo no Brasil e colocar os dois primeiros textos desse quase diário – se é que esse é o termo correto.

André, ou foi pelo menos isso que eu entendi, o tcheco, chegou. Não muito alto, com poucos cabelos em sua cabeça apesar dos vinte e três anos, ele me disse que faz medicina e pretende ser cirurgião. Em dez minutos durante o jantar consegui conversar mais com ele do que com Bill em toda minha estadia, por enquanto. Já que ele ficará uma semana apenas, disse que quer aproveitar ao máximo o que puder. Tomara que ele não se enfurne junto com os outros tchecos, ou, ao menos, que me introduza ao grupo do Leste Europeu.

Minhas aulas começam daqui a algumas horas e espero estar pronto para entrar, pelo menos, em uma sala que requeira nível mediano. Pelo que Sra. June me disse, as turmas devem mudar muito, logo, não deverei me acostumar muito com o pessoal que encontrar essa semana.

Amanhã pretendo colocar em algum Youtube da vida todos os vídeos que fiz até agora e se consegui-lo coloco algo aqui no blog também. Que o amanhã seja melhor que o hoje, não é ?

Trilha Sonora: Paralamas do Sucesso – Tendo a Lua: ‘Tendo a Lua, aquela gravidade onde o homem flutua, merecia a visita não de militares, mas de bailarinos e, claro, de você e eu.’

domingo, 14 de dezembro de 2008

13/11/2008 - Segundo Dia

Bem cheguei, dormi doze horas, coisa que não consigo fazer nunca no Brasil e acordei, assustado, pensando que era muito cedo e que não haveria ninguém me esperando para o café da manhã. Não errei, mas por motivo diferente. Acordei às dez da manhã e todos já tinham tomado seu chá com leite – tão bom quanto o nosso café com leite – e comido suas torradas. Fiquei impressionado com a multiplicidade de refeições. Cereais matinais – é, sucrilhos mesmo - de quatro tipos, três torradas diferentes, manteiga, pasta de chocolate, igualzinho Nutella, e a tal marmelada de laranja, que como era dito na embalagem, a melhor do mundo. Melhor em quê se marmelada é horrível?

A Senhora June, após meu café da manhã mais que farto, me aconselhou: não saia hoje, o tempo está péssimo já que além do frio, está chovendo. João, teimoso como sempre e despreparado como nunca, disse, ah, que isso, lá em São Paulo também tem uma chuvinha, nada demais. Logo, fui enfrentar o mal tempo, que, realmente, era muito ruim. Antes, porém, Sr. Sonny me deu um mapa da cidade e me explicou onde eram os pontos importantes e onde, talvez, eu tivesse curiosidade de visitar. Tinha apenas dois objetivos: comprar uma câmera fotográfica e, com sorte, ligar para casa. Fui, caminhando, e pela primeira vez, vi como era a verdadeira cidade de Eastbourne. As casas são gigantescas, mais parecem pequenos prédios. Depois de pegar a avenida errada, parar em frente aos prédios da Universidade de Brighton – não, eu não errei tanto assim, é que uma das divisões da instituição é localizada em Eastbourne – retornei e fui em frente pela Meads Road até chegar a uma banca d jornal que, na realidade, é uma loja que se vende jornais, revistas e pirulitos, pois não há banca, literalmente falando. Nem banca e nem cartão telefone, e Internet. Achei a procuradíssima Internet dentro da biblioteca da cidade onde uma atendente simpaticíssima me atendeu, pegou meus dados e me deu um cartão que me permite usar a rede de computadores por uma hora sem pagamento algum. Quer melhor ?
Saí de lá satisfeito, pois, além do atendimento exemplar, os computadores funcionaram e consegui avisar alguns da minha chegada, mas, conversar, não pude. Espero que segunda consiga fazê-lo.

A minha segunda aventura do dia, muito bem mais sucedida, foi pelo cartão telefônico. Lá, dentro da estação de trem, u homem não tão bonito e nem tão educado quando a moça da biblioteca me atendeu, apenas me indicou aonde poderia ver os preços e os minutos que tinha por cada chamada. Comprei o de dez libras. O cartão se auto-explicava, logo minha inteligência nem meu inglês precisaram ser testados para que conseguisse ligar para casa. Minha mãe atendeu e o papo rápido me diminuiu a saudade e aumentou a vontade de voltar, mesmo que essa seja pequena, ainda. Logo depois, consegui ligar para Miucha e com um sonoro ‘Hello Darlin’ consegui quebrar um gelo, quase o mesmo que ela fazia comigo, quando dava aqueles sorrisos de derreter o iceberg que afundou o Titanic.

A estação continuou ali, bonita, bem arrumada, vitoriana. Os preços para viagem com destino a Brighton ou Londres não são caros - £7.90 para Brighton e £13.50 para Londres – o que me surpreendeu e me entusiasmou ainda mais a conhecer as duas cidades mais próximas e acessíveis para mim. Achei um shopping mall que não oferecia muita coisa e parti para outro, maior, mais bem estruturado com Starbucks e McDonald’s dentro. Achei logo uma loja da Sony onde um vendedor, também não muito bem educado, não pareceu querer me vender a câmera que escolhera. Pior para eles, melhor para mim, logo achei uma loja que oferecia a mesma câmera por um preço mais barato e com um atendimento melhor (ela era francesa, com um sotaque inconfundível, loira, olhos azuis, mas um tanto quanto estranha e atrapalhada). Então vi o sonho de loja. Uma tal de World Sport que vendia camisas da Seleção Inglesa de futebol, cada uma, por 10£. Acabei escolhendo a do Celtic, mais bonita e com o mesmo preço. Aliás, uma vantagem em ser baixo na Europa: a tal da camisa do Celtic que paguei cerca de quarenta reais, serve para crianças de 14 anos ou até 1,70 m de altura, logo, serviu para mim. Aproveitarei outras promoções do tipo, espero.

Saí e planejei meu retorno para casa. Logo achei os ônibus de dois andares, tirei foto, saí correndo atrás dos tais, mas retornei, tranqüilamente para minha homestay, sem antes conhecer o Cricket Club de Eastbourne, a minha escola e o mar. Sim, aqui é uma cidade de praia! Apesar disso parecer impossível.
Retornei, tive meu primeiro banho, curto e quente, jantei da melhor maneira possível: macarrão e peixe com um molho picante absurdamente bom e uma gelatina que mais parecia pudim de doce de leite. A comida, aliás, traz muitas contradições. Parece que você está comendo uma coisa totalmente diferente daquela que você conhecia anteriormente.

Meu pai me ligou, antes das nove da noite, e, apesar disso parecer um tanto quanto poser, quem quiser me ligar – sim, sinto muitas saudades de jogar conversa fora com qualquer brasileiro, apesar do sotque inglês ser agradável – é so ligar em casa e perguntar onde encontra uma cabine que com 50 centavos consegue-se fazer uma ligação internacional para qualquer canto do mundo, de preferência Eastbourne, Meads Road, number 4.

Minhas aulas começam segunda, amanhã chega o tcheco e o chinês, descobri, é simpático mas pouquíssimo comunicativo, logo, continuo sem amigos pra me acompanhar nos pubs da vida. Vamos ver se isso muda nos próximos dias.

Trilha Sonora do Dia: Legião Urbana – 1965: ‘Em toda e qualquer situação eu quero tudo pra cima!’

11-12/12/08 - Primeiro Dia

Cheguei à Inglaterra.O sonho sendo realizado assim diria. Mais, nem só de facilidade e beleza são feitos os nossos sonhos. A viagem, minha primeira sozinho e de avião, não teve nenhuma dificuldade aparente, pelo menos, até o pouso quando a espera para pousar foi de mais de vinte minutos. Antes disso, porém, quase perdi o vôo já que estava ouvindo Paralamas no volume máximo dentro do saguão de espera para Londres JJ8O84.
Durante toda a viagem a tranqüilidade e o sono se abateram sobre um avião meio-cheio / meio-vazio. Acordei e dormi por três vezes até que vi o Sol raiando no horizonte e ração. percebi que chegávamos próximos da cidade portuguesa de Lisboa. Curiosidade: passei por Porto, La Coruña, Nice e só sol. Não via uma só nuvem no céu. Foi cruzar o tal do canal da Mancha que surgiu um mar que parecia de algodão abaixo da minha vista e fora do avião. O cima em Londres estava extremamente inglês. Chuvoso, cheio de nuvens e sem uma gota caindo.
A parte mais tensa da viagem,entretanto, foi a imigração. Falando com uma senhora sem a mínima paciência ou vontade de tentar entender que o meu motivo de estadia dentro do Reino Unido eram os estudos, passei, pelo menos, vinte minutos tentando convencê-la de que eu não rubaria o emprego de seu respectivo filho ou que a possibilidade de planejar um ataque terrorista – apesar da barba – era nula. Depois de mostrar todos os documentos e responder perguntas do tipo: “What does your father do at Brazil?’ ou ‘What are you meaning as you are just sixteen ?!’, fui em busca da minha bagagem. Cheguei, a esteira passou, ajudei uma senhora chilena e minha bolsa enfim procedeu. Sem um risco sequer parti em direção ao Gate 4 de Heathrow. No entanto, no caminho, encontrei um telefone p[ublico e lá se foi um euro – ao fim do dia foram 4 euros e 50 centavos em tentativas de ligação. Chegando ao portão, um daqueles guardas muito bem educados me pergunta: ‘Where are you coming from?’ eu, logicamente:’Brazil.’ Ele me deixa passar enquanto, outro, no meu encalço me pergunta novamente. A resposta é a supracitada. Então, para minha surpresa ele diz: ‘Can you open your luggage, please?’, com o maior sarcasmo possível na voz. Abri, educamente, mostrei todos os documentos enquanto ele tirava, peça por peça as roupas que estavam na bolsa. Ao fim, vendo que nada encontraria, arrumou e até, olhem só, me auxiliou a fechar a bagagem.
Free shop podre, nada barato e nada de interessante. Nem um cartão telefônico e muito menos uma máquina fotográfica. Logo encontrei o meu motorista. Com cara de islâmico, ele me respondeu que era grego e que estava na Inglaterra havia treze anos. Conversamos desde a seleção nacional inglesa de rugby até das condições de tempo que se encontrava em Eastbourne naquela passagem de ano. A parte mais proveitosa da minha viagem, até ali, então. Nos despedimos e ele me deixou em frente a residência dos Ullah. Parêntesis: Eastbourne é linda. Cidade de filme. Todas as casas têm, no mínimo, três andares. Não existem portões e árvores para todos os lados. Melhor que qualquer seriado norte-americano. E, claro, a casa da minha host family não poderia ser diferente.
Logo que viu, Mr. Ullah abriu a porta, me saudou, elogiou meu parco inglês e se mostrou muito simpático, mas de poucas palavras. Contraditório não ? Aqui na Inglaterra não. Dono de um bigodão, entradas bem desenvolvidas na sua quase careca e um pôster do Freddy Mercury na parede, o Sr Sonny me foi prestativo. Me deu alguns minutos enquanto,me encontrava em meu quarto, grande, espaçoso, cheio de gavetas e tomadas, e de cama das mais confortáveis que já vi, e já o jantar estaria pronto. A Sra. June, essa sim, faladora e educadíssima, me introduziu tudo que eu poderia e fazer e quase nada do que não poderia. Engraçada e dona de dois dos cachorros mais lindos que já presenciei, ela quis me fazer sentir o mais confortável possível. Inclusive, lavará minhas roupas (o que me fez adiantar o presente que a daria no Natal, uma coleção de pedras brasileiras. Pequenas, mas bonitinhas).
Logo o jantar estava servido: chips and fish. Fantástica mão-de-cozinheira que a dona Ullah tem. Perfeita refeição, sem contar, claro, com a descoberta que fiz de um tal molho marrom – Brown sauce – que não chega a ser enjoativo como o catchup\ou amargo como a mostarda, é tão balanceado que vale muito à pena. Depois do jantar, quando conheci um de seus filhos além de um chinês, da minha idade e de nome impronunciável que não trocou uma só palavra comigo, resolvi dar uma volta pela rua. Ófrio rascante. O maior que eu já senti em toda minha vida e que tende, muito, a ser batido, pois a previsão de tempo para os próximos dias é de chuva e frio intensos. Achei as lojinhas arrumadas e as pessoas esnobes, claro,ingleses. Até que achei um telefone público e consegui falar por cinco segundos com minha irmã e meu pai. Palavras básicas e que me custaram, ao menos, três euros. Foi bom, pelo menos ouvi suas vozes por milésimos de segundo. Voltei para casa congelando e decidi dormir. Vou fazê-lo agora. Quando tiver acesso à Internet mandarei este texto. Tomara que amanhã, ou hoje à noite mesmo, já que descobri que existe um estudante chinês aqui e que, domingo, chega um tcheco. Quase um albergue de luxo isso aqui, mas o clima é, como diriam cá, cozzy.
Espero poder falar com alguém em breve. A saudade do Brasil é gigante.
Trilha sonora do dia: Skank – Tão Seu: ‘Me sinto só, me sinto só, eu me sinto tão seu.’

Tô com muitas saudades amor. Eu te amo.